25.12.14

los angeles: quatro

devagar, quase parando, a gente vai...
sentindo entre as linhas, sentindo as texturas, deixando levar.

é bom finalmente tirar o relógio
parece que a gente ganha tempo
ganha peso

mesmo assim, fica ainda a minha cabeça dura, de vício nos prazos, nos pontos finais, me cobrando constância
o tempo todo
o tempo, de novo

é duro, é doído ficar pelo entremeio
ora de olho no lado de fora, no contexto, nas pessoas
ora sem olho, sem nada

sei lá,
vou deixar aproveitar, pelo menos um pouco
as suspenções
os espaços
antes de alguém me puxar pra baixo

e eu ter que voltar de vez


trilha: your name, jt royster

los angeles: os primeiros três dias

Ainda tá tudo muito embaçado.
Sabe quando você chega em casa cansado, dorme a tarde e acorda com alguma conversa pela metade? Aquela sensação semi-lúcida de pegar um trem já em movimento, mas sem muito saber da hora, ou sequer do dia?
É... Peguei um avião atropelando os prazos e finalmentes de muitas coisas.
Deixei todos os pontos em São Paulo, e cheguei como quem acorda no sofá da sala, entre a TV alta e o sonho ainda fresco.
Esses primeiros dias foram bem acomodados. Senti como que em casa, alguns anos mais novas. Revi e conheci muita gente querida, que me levou pela mão pra todo canto com toda a gentileza do mundo; de portas e braços abertos para tudo o que vinha de mim, me oferecendo muito mais do que eu podia lhes dar.
Tá tudo ensolarado. Sol de verão da Califórnia. Sem verão.
Ainda sim...
Me falta é sentir essa cidade um pouco sozinha.
Sem o cinto de segurança de ninguém.
Entrar num ônibus e fazer parte. Pertencer ao movimento, entender o ritmo daqui.
Tirei o dia para planejar... encarei a tela o computador durante horas; não deu muito certo.
É, acho que no fim vou ter que atropelar de novo.
Sair descalça pra sentir um pouco mais desse chão duro.
Ver se assim eu acordo de vez.





(vídeo com texto adaptado)
trilha: mesita, endless build into nothing
26.8.14

reflexão sobre: à une passante, Charles Baudelaire



À une passante

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais!
Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Un éclair... puis la nuit! — Fugitive beauté
Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!

— Charles Baudelaire



A uma passante


A rua ensurdecedora ao redor de mim agoniza.
Longa, delgada, em grande luto, dor majestosa,
Uma mulher passa, de uma mão faustosa,
Soerguendo-se, balançando o festão e a bainha;
Ágil e nobre, com sua perna de estátua.
Eu, embevecido, inquieto como um extravagante,
Em seus olhos, o céu lívido onde se oculta o furacão,
A doçura que fascina e o prazer que destrói.
Um clarão... depois a noite! - Beleza fugidia
Cujo olhar me faz subitamente renascer,
Não te verei senão na eternidade?
Alhures; bem longe daqui! Muito tarde! Jamais talvez!
Pois ignoro onde tu foste, tu não sabes onde vou,
Ah se eu a amasse, ah se eu a conhecesse!

— trad. Mário Antonio Frangiotti




Apaixonar-se pelo inapreensível, pela imagem frágil de uma presença que nos atravessa, em anônimo, na multidão. E o deixar ir faz parte, porque é justamente a incompletude que não nos permite esgotar a qualidade do sentimento. 

22.8.14

poesia transeunte


Montreal, Quebec. Uma versão quatro anos mais jovem minha, viajando sozinha pela primeira vez. Levava em uma mão o mapa e a outra agarrava à barra do metrô. Fazia pouco tempo que havia começado a andar de transporte público. Em São Paulo, tinha de cabeça as estações e pontos do cinema, da escola e da casa da Gabi. E era só para onde eu ia. A trajetória decorada, previsível, me gerava um estranho conforto, frio de diálogo e fiel em seu caminho. Como a ilusória intimidade de sorrir para o cobrador de rosto conhecido, sem esperar por resposta.
Dessa vez era diferente. Foi por um impulso de sair de "casa", de tomar ar das pessoas com quem havia sido designada a morar, que me vi com aquele mapa na mão. Pela primeira vez não sabia as paradas de cabeça. Pela primeira vez não sabia pelo o que esperar ao girar a catraca. Pela primeira vez eu não sabia de nada.
Os primeiros quinze minutos foram de pânico, confesso. Mas aos poucos, de tanto analisar e especular histórias sobre os rostos ao meu redor, fui me acostumando, forçando familiaridade. Escolhi um nome aleatório, o que me soava mais bonito. Place-des-arts? Place-des-arts. Esse mesmo.
"Station Place-des-arts, atterrissage sur le côté droit du train"
Subi as escadas. Já não sentia mais a insegurança de antes. Sabia muito bem o que eu estava fazendo ali. Era quase como uma missão antropológica, estava num safari urbano desconhecido. Minha primeira experiência de deriva consciente.
Meu andar ritmava um propósito: poderia muito bem estar indo à livraria, ou à farmácia da esquina. Era determinado. Eu acompanhava meus pés depois dos próprios passos, seguindo a sua vontade. Vontade esta que perseguia outros pés, outros rostos, outras paisagens. 
Eu vi poesia nas calçadas, nas conversas paralelas, nas pequenas narrativas que ia encontrando pelo caminho. Criava minhas próprias versões da realidade, ora inventando histórias que logo desapareciam em algum cruzamento; ora procurando motivos para entrar em lugares com fachadas simpáticas. Me deixava levar por alguma presença interessante, me deixava ser flâneur, me deixava. E por lá mesmo fiquei. 


“The crowd is his element, as the air is that of birds and water of fishes. His passion and his profession are to become one flesh with the crowd. For the perfect flâneur, for the passionate spectator, it is an immense joy to set up house in the heart of the multitude, amid the ebb and flow of movement, in the midst of the fugitive and the infinite. To be away from home and yet to feel oneself everywhere at home; to see the world, to be at the centre of the world, and yet to remain hidden from the world – impartial natures which the tongue can but clumsily define." 
Charles Baudelaire 

trilha sonora: múm - green grass of tunnel 
27.7.14

28 jul 2014

Dear July,

You're almost over and I still don't know what to do you with you. It's scary, you know? To have a whole month to yourself, to anything you want to do. And that's the thing, I don't know, I'm still not sure. I can't really decide what to do with so much freedom, so I plan. I plan ways I should be, things  I should do, and somehow it makes me feel less anxious about not knowing. And maybe those things will never even happend, but having them pushed a little bit more into the future, makes me feel like I still have time to figure things out before anything happens. Anyways.. it's winter here in Brazil, and I just love the gloom of winter mornings. As if I was in Lars Von Trier  movie, I imagine everything in super slow motion, and I wait. I wait for that moment when everything clicks and you just know. I wait for something I'm still not sure about. I give it time to grow. I give you time, july.


19.7.14

sobre a melancolia das manhãs de inverno

   É como uma quase-ação. Aqueles segundos sonolentos que antecedem um impulso pelo fazer, mas não chega a ser o suficiente. Olhar fixamente para alguma coisa esperando que ela se faça, se desfaça por si só. E nada. Nada sequer muda de lugar. Apesar do pesar, do peso mesmo, que é tão grande que faz som, ruído de interferência. O fluxo constante de poluição visual e sonora, que ronda, te observa, que pesa. E você continua aqui, no quase, no entremeio.
  Parece até que as coisas gritam. O jornal deixado de lado na mesa, as chaves, a porta. Eles gritam, te chamam, te sacodem. E de que adianta? Podem fazer ou não fazer, cumprir ou não cumprir, mas de que servirá? No fim são só rodeios que voltam ao mesmo lugar. Discursos imperativos, tão afiados que atravessam. Eu levanto e sirvo mais café. Mais café para acordar, para ter energia, para ter proveito. Para mostrar proveito.
   E no sábado seguinte estarei na mesma mesa, com o mesmo jornal por ler, as chaves, a porta. O mesmo enquadro que espera alguma ação, e eu servirei mais café.

Trilha Sonhora: Oskar Schuster - Les Îles Féroé
27.6.14

circo dos discursos circulares

     Eu afirmo, reafirmo, e o faço novamente, só para não fazê-lo de verdade. Eu sei do que eu preciso, eu sei o que na minha cabeça é o mais prudente, se é que posso colocar assim, mas muitas vezes não ponho em prática. "A comunicação é essencial" eu sempre imponho, mas quem disse que eu me comunico? Eu participo do circo de histórias arredondadas que tornam as coisas mais bonitas, mais aceitáveis, mas e o feio, o afiado, o dolorido? Nunca estão no meu discurso. Quer dizer, não quando se referem a mim. 
    O mais duro é saber de tudo isso e não fazer nada a respeito. Queria eu ter o poder de entender os meus problemas e saber resolvê-los ali na hora, mas é como se naquele exato momento eu me sentisse tão ameaçada a ponto de esquecer tudo o que acho sensato. Pause e eu tateio pela resposta mais fácil de engolir, a que seja mais esférica, que me faça parecer melhor. E aí eu entro na mesma lógica midiática de valores projetados (teoria de Morin); mediocridade, conformismo, acriticismo e conservadorismo, seguidos à risca. 
   Mediocridade ao superficializar a situação, sem julgamento dialético algum (como ao que me referi naquele post com a trilha do Jack Johnson). Conformismo ao entregar uma mensagem tão lapidada, tão mastigada, a ponto de não haver outra reação por parte do meu receptor se não a de se conformar. Acriticismo, pois com o diálogo tão redondo não há como argumentar, eu te jogo no loop da minha montanha russa (mais uma vez, a mesma do post do Jack), em que você perde todo o seu poder crítico de juízo (nos termos adornianos). E por fim, e talvez mais valorizado entre todos os outros, vem o conservadorismo: eu necessariamente me saio imparcial no fim da história, pareço bem para todos os lados, afinal, o problema já não era nem meu. 
   Pronto, resolvido, falei, falei, falei, e não disse nada. Não comuniquei o que realmente estava pensando de tudo aquilo. E será que eu sequer lembro de como se identifica isso? Será que eu sei o que eu realmente sinto, ou só o que eu quero sentir? É como se meu cérebro tivesse se acostumado a resolver as equações colocando outras por cima, num movimento de abstração eterna das formas sólidas; as falas só se embaraçam mais e, de camada em camada, perdem totalmente o sentido que um dia já tiveram. Eu passo da fração pro decimal, decimal para a fração, e nem sei do que se trata: no fim das contas, são só números, não? 
   Numerosas sim foram as vezes que eu coloquei a comunicação como essencial. Tamanha ironia que eu, estudante da tal comunicação, até agora não havia entendido de verdade que pratico todo dia o que eu critico. Critico no papel, na prova, no trabalho, o mesmo discurso que reproduzo sem nem perceber. Corpo-mídia se faz cada vez mais claro, e Debord ainda mais genial: a sociedade do espetáculo produz e reproduz seu conteúdo fantástico, todo feito de imagens, projetando e se apropriando de formas feitas de aparência. 

Trilha sonora: Anthem - Emancipator (Twoven Downtempo remix) 

26.2.14

EXP. 3 - 3h15; uma crônica que todo intercambista já viveu


3h15. Era o meu primeiro dia sozinha. 

Logo cedinho, vi pelo fresta da porta a luz da cozinha ser acesa. Se ouvia as colheres enchendo de leite com cereal, serem levadas à boca e depois recolocadas na porcelana; posicionadas na mesma mesa em que, mais tarde, estaria um bilhete escrito especialmente para mim, desejando uma boa manhã. Esperei o barulho da chave virando para me levantar. Na ponta dos pés levei meu corpo em passos inseguros para explorar. A luz ainda apagada de receio. Inspirações e expirações calculadas para não fazer barulho. Cruzei o corredor. 
Tudo tão contornado, recheado de uma história que não era minha. Estranho. Vacilei a perna quando, um pouco abaixo da canela, senti um serzinho ainda desconhecido me dar boas vindas. Saltitante, assim como as expressões dos personagens nas fotos que me observavam. Sem nome. Tentava ligar os rostos vazios com as histórias que me contaram no carro quando viemos do aeroporto. Tava tão escuro. A tia era a loira ou aquela de blusa verde? E a filha, qual? 

Esqueci onde ficava o pão que eles tinham me mostrado. Vasculhei um pouco pelos armários, recolocando as embalagens com os rótulos virados para o mesmo lado que deixaram. Achei, mas e a manteiga?
Algumas horas depois, louça lavada, peguei o tal do bilhete. 3h20 estariam de volta. Pontuais, antecipados ou atrasados? Relógio marcando, ritmado. Eram 3h15.

23.9.13

DES IGUAL

Sempre falo sobre equilíbrio, a importância de se manter estável em relação a todas as partes.
As partes, digo, que te compõe, que compõe o em volta e o coletivo.
Um tanto quanto impossível.
Impossível manter-se intacto a qualquer tendência, pendência que temos sobre alguma destas partes.
E isso varia, oscila e se alterna diacronicamente, porém sincrônico aos nossos processos.
Exijo isso de mim o tempo todo. E, segundo minha mãe, exijo isso dos outros também.
Não acho que seja verdade.
Acho inclusive que ora aceito a demasiada inconstância alheia, ora só deixo de lado.
Nunca a confronto.
Pensando bem, minha ideia de equilíbrio platônico pode muito bem ser traduzida em uma felicidade momentânea. Algo que me faça acreditar que estou em plena estabilidade.
Uma combinação ideal do valor de cada parte que funcione, compense, e me sustente.
Meu equilíbrio desigual.

Trilha sonora: Runaway - Del Shannon
9.9.13

pela metade

não quero ser resto de final de amor
não quero mais sentir as coisas como oportunidades, possibilidades,
quero senti-las por si só, por inteiro 

ultimamente tudo tem sido pela metade
talvez eu mesma esteja em partes
eu nunca sou inteira

acho que sou exigente demais
esperando que as pessoas me enxerguem por completo, direto, sem parar no superficial
impossível é querer delas, uma coisa que não estou, mas sou
isso confunde 
e até (me) ilude 
sobre as vontades

afinal, eu quero o simples
eu quero que me enxergue
que me olhe, me analise, me questione, me acrescente 
e não me veja como um parêntesis 
gostoso de companhia, passivo

eu não sou passiva
eu sou inteira 
gente 

Trilha sonora:  My Body is a Cage - Peter Gabriel 
14.8.13

NUMB

Às vezes eu deixo de pensar nas composturas, passo a sentir mais as texturas, as coisas que a gente vê mas não enxerga. É como um botão de liga/desliga, só que no automático, sem nenhuma embreagem para pressionar. E, por mais queira soltar e apertar o acelerador, ele não vinga, não existe. Eu fico sem pés.
Queria eu aproveitar esse momento para entender melhor o que está no meu subjetivo, mas quanto mais eu tento chegar perto da ideia, mais distante eu vou ficando de mim, meu corpo tá longe. E eu perco, me perco nos giros soltos que vou dando para cumprir as burocracias. Cambaleio pelas conversas, já não entendo mais de festas e muito menos de como me portar. É como se tivessem apagado tudo. Ou tudo tivesse perdido o sentido, as coisas parecem tão bobas.
O assustador é perder o tato e ao mesmo tempo visualizar tanta coisa, tanto detalhe. As coisas vão virando gente e a gente vai perdendo cor, ou pelo menos eu, eu perdi cor. Me apaguei, me deitei. E não consigo mais saber se o que eu sinto é nulo ou dor. Ou nenhum dos dois.
E eu fico indiferente a tudo. Vou passando, vou deixando, vou andando sem ninguém.

Trilha sonora: Oskar Schuster - Les Sablons

Au revoir
5.4.13

EXP. 01


1.4.13

Fascination ends

 A habilidade de negar sensações e percepções naturais em pró da convivência social já está totalmente integrada nos signos culturais. 
 Eu tentei, escrevendo e reescrevendo, por em palavras o que estava na minha cabeça hoje de manhã e, infelizmente, foi essa frase que saiu. Infelizmente porque ela não expressa nem metade do que eu queria dizer, mas até aí, talvez isso também não seja apropriado. Ultimamente os pensamentos já não se organizam mais em linhas na minha cabeça. Eles vem em imagens, sons e cheiros, como que sonhos que eu nunca tive. Confesso que já tentei, mais de uma vez, colocá-los de alguma forma aqui no blog, mas nada parece ilustrativo o bastante. É frustrante.
 Apesar de saber que um conteúdo subjetivo nunca vai conseguir ser traduzido e repassado por completo (de nenhuma forma), eu insisto em tentar, de todos os jeitos, compartilhar. É burrice pensar que vai ser de interesse geral, mas tem vezes que parece valer à pena. E é aí em que entra a frase inicial.
 Esses dias eu tive uma vontade imensa de colocar para fora algumas coisas da minha cabeça para uma pessoa que eu mal conheço. Talvez tenha sido por intuição, mas o que quer que seja, ainda foi insufisciente para permitir que isso acontecesse. A questão não é a conveniência de se falar ou não, e sim o que vem depois: uma necessidade quase que imediata de se explicar.
 É preciso explicar-se para tudo o que não é convencional, como se aquilo te atribuísse algum tipo de culpa. Como se qualquer reação inesperada precisasse de justificativa.
 Ao fazer algo pura e simplesmente porque deu vontade (quase que inconsciente), se não os outros, nós mesmo já começamos a nos perguntar o porque daquilo. O porque da vontade, as consequências dela, e por aí vai... Por mais efêmera que seja. Mas aí é que está: nem sempre a gente tem justificativa. Às vezes as coisas são e pronto. Elas só são.




Trilha sonora: Not in Love - Crystal Castles (ft. Robert Smith)

Au revoir


16.12.12

Instead they are looking up towards the heavens...

  Às vezes estamos tão próximos de algo que acaba sendo difícil enxergar todas as suas possíbilidades com um olhar sensato. Como a teoria da montanha russa de Sevcenko, quando o homem quebra as barreiras religiosas e embarca nas grandes navegações, ele perde noção de sua virtualidade e entende o mundo agora com referências diferentes. Isso seria o começo de um passeio na montanha russa, quando o carrinho vai, lentamente, escalando os trilhos e chegando cada vez mais alto. O momento em que ele está por um triz da descida, com toda a potencialidade armazenada, é quando chegamos ao ápice da lucidez. Adquirimos uma distância suficiente para observar tudo bem de longe, e as coisas parecem muito diferentes do que eram antes. É como se todos os rostos familiares se perdessem em uma multidão, e agora, por mais que tenhamos uma percepção mais crítica, precisamos reaprender a julgar, a avaliar.
 Eu sinto que isso se aplica a muitos momentos da vida, principalmente aos de transição, e é muito bom saber que sempre existe a possibilidade de olharmos tudo do alto da montanha russa. Algumas situações podem ser bem confusas e, por mais que tentemos agir da maneira mais prudente possível, às vezes um simples passo para trás nos dá o foco perfeito. É tudo uma questão de achar o ângulo certo.
 Acho que é por isso que mudamos tanto de opinião. Sempre tem um ponto de vista diferente em que uma outra alternativa pode parecer mais coerente do que a anterior. Sempre tem um outro lado.

Trilha sonora: Traffic In The Sky - Jack Johnson

Au revoir!
8.12.12

You say you wanna start something new

 É isso aí, meia-noite e meia, véspera do meu último vestibular do ano, e eu, desleixadamente, cantando um clássico dos anos 70 com a minha escova de dentes na mão. É engraçado pensar em como as coisas podem mudar em um período de tempo tão curto, basta alguns acontecimentos se encaixarem da maneira correta.
  No começo desse ano eu tinha um plano muito certo. Ou pelo menos achava que tinha. Para mim, não era segredo nenhum o que aconteceria depois que escola acabasse. Eu iria estudar muito, passar no vestibular e, no ano seguinte, embarcar na vida uniersitária. Simples assim. Eu não imaginava o quão irregular e estimulante 2012 seria.
 Por mais que o ano não tenha deixado milhares histórias maravilhosas para contar, a vivência dele em si foi muito complicada e, mais do que isso, importante para mim. Importante no sentido de aprender que existem muitos outros lados de mim mesma que eu não conhecia, e que às vezes tudo bem não seguir as coisas conforme o planejado.
 Durante toda a minha vida eu tentei provar a mim mesma que conseguiria atingir minhas metas, mas nunca tinha parado para pensar o que cada uma delas significava. Às vezes nós colocamos nossos objetivos tão à frente de tudo que acabamos reprimindo todos os outros caminhos alternativos. E, quando meu objetivo a longo prazo deixou de ser tão distânte e se tornou realidade, eu percebi que talvez ele não tudo aquilo que eu queria para esse momento da minha vida.
 Por mais que eu odeie admitir, eu estou morrendo de medo. Pela primeira vez eu não tenho certeza nenhuma do que vai acontecer a partir de agora, e isso é aterrorizante. Ao mesmo tempo, eu não consigo deixar de pensar nas inúmeras possibilidades quânticas que eu tenho pela frente. Assim como com o gato de Schrödinger, tudo pode acontecer.
Cat Stevens estava completamente certo, "It's a wild world".

Trilha sonora: Wild World - Cat Stevens

Au revoir!
30.8.12

Past all the signs of the slow decline

 Às vezes eu seriamente acho que as coisas das quais eu sempre pensei que fossem predestinadas a acontecer talvez não caibam mesmo na minha vida.
 Sei lá, eu me preocupo com coisas tão pequenas, tão bobas perto de pessoas com problemas de verdade. Eu me sinto muito mal mesmo por isso, e começo a me preocupar em me preocupar com coisas diferentes. É. Eu sei....
 Bom, a questão é que eu nunca entendo direito se não estou dando valor as coisas certas, ou só me encontrando com as erradas. É engraçado como eu sempre acho que dessa vez vai dar certo, e não dá. Ou é falta de confiança em mim mesma ou confiança demais no destino. Se é que isso existe mesmo.
 Sabe quando a gente é criança e se imagina no futuro de um jeito muito distorcido, mas, de alguma forma, certo? Mesmo que nós tentemos ao máximo nos afastar desta memória e preencher o espaço com coisas mais "reais", mais adultas, ela sempre vai estar lá, nos assombrando.
 Eu não sou alta, magra, inteligente ou bem sucedida como eu achei que seria. Mas eu sou muitas outras coisas, coisas que eu nunca imaginei que seria. E por mais que às vezes a minha idéia de quem eu deveria ser não é correspondida por quem eu realmente sou, eu acabo me surpreendendo com outros detalhes, detalhes que eu não percebia antes, e que, bons ou ruins, ainda vão estar por perto.
 Me conforta a idéia de que ainda tem muito chão por vir, muitas oportunidades de mudar, das minhas idéias mudarem, e quem sabe eu construir algumas expectativas novas? Não mais reais, não mais adultas, mas diferentes... Diferente é bom.

 Trilha sonora:  Featherstone - The Paper Kites

Au revoir!




25.8.12

Till it eats the heart from your soul..

 Desculpas são pretextos nos quais nos inserimos para evitar algum o domínio de realidade na vida. Criamos, pensamos, estruturamos e nos enganamos. E mesmo que isso nos prenda em algo bom ou ruim, nunca vai ser de verdade. Apalpável.
 O problema é se perder dentro de suas próprias invenções, caminhos meticulosos que desembocam em labirintos e, em teoria, mascaram a entrada para um outro lado mais difícil (muitas vezes só por aparência). A gente não sabe mais o que já estava ou não no caminho e construimos inseguranças, obstáculos falsos, nos armando de qualquer recurso que estiver a mão. E aí já era. Está tudo misturado.  
  Podemos até fingir permanência em alguns aspéctos, mas garanto que de permantes não terão nada. De tantas promessas, feitas, desfeitas, esquecidas ou até relembradas, no fim o que resta é o que foi feito. Então mesmo que deixemos para a semana que vem, mês que vem, futuro que vem, elas não vão se realizar se não forem colocadas pra fora do imaginário.
   É assim que a vida funiciona, matéria não é feita de suposições.

Trilha sonora: Silent Sigh - Badly Drown Boy

Au revoir!
6.7.12

I climbed this hill watching so still

 Em muitos momentos nossas razões parecem tão certas, tão justificáveis, e mesmo tempo são tão difíceis de se entender quando as confrontamos. Até que desistimos de nos explicar: ou nos enganamos com algum motivo aparentemente válido; ou esquecemos. E vão se acumulando, vão se perdendo. Ou melhor, se mantendo.
São como gotas de chumbo colocadas na água. Elas descem, se instalam e lá ficam. Estáticas. Buracos em areia fina sem perceber.
E se acumulam, por tempos, e tempos, até chegar à superfície. E aí em que reais decisões são tomadas, aí que tudo se mescla, contorce, disorce e vira palavra. Palavra fria e sem razão, mas solta.
Distorcidas mesmo são as ramificações nas quais os nossos laços se estendem. São as nossas idealizações de parentesco e como tudo realmente é.
O que é pai, mãe, irmão?
Se são ideiais separados em um mesmo espaço, talvez sejam só corpos em um encontro. Sem qualquer ligação.
E quando se perde o último vínculo que mantia todo o chumbo coberto, só se vê a superfície, e, ao mesmo tempo, não se vê mais nada. É como estar nua numa valsa programada.

Trilha sonora: "To Be With You" - The Honey Trees

Au revoir.
4.6.12

MMM Conjunto!

Bom, faz milênios que eu não posto um MMM, então, à pedidos de alguns subscribers, hoje eu farei um MMM um pouco mais completo, pra compensar os meses que eu deixei passar! É bem eclético, mas bem Alice (:

Janeiro/Fevereiro
  1. Big Jet Plane - Angus & Julia Stone
  2. I'll Follow You Into The Dark - Death Cab for Cutie
  3. Miss You - Blink 182
  4. Glad You Came - The Wanted (eu sei, também não esperava gostar dessa música haha) 
  5. I've Just Seen a Face - The Beatles
Março/Abril

  1. Do You Wanna Touch Me - Joan Jett & The Black Hearts
  2.  Young Blood - The Naked and Famous 
  3. Electric Feel - MGMT 
  4. Houdini - Foster The People 
  5. When The Sun Goes Down - Arctic Monkeys 
 Maio
  1. Time To Pretend - MGMT
  2. Gold Guns Girls - Metric 
  3. Please Rewind - I Blame Coco
  4.  Rock & Roll - Eric Hutchinson 
  5. A Team - Ed Sheeran


    Au revoir!

Don't you forget your name

 O primeiro dia de "mudanças" começou bem: dormi e acordei cedo, com um super bom humor. A escola passou voando, assim como os episódios de "How I Met Your Mother" que eu venho assistindo ultimamente. Sei lá, acho que quando a gente se organiza melhor tudo parece mais fácil, mais significativo, divertido à ponto de se comparar estudos a um seriado de TV (que inclusive é super legal!).  Hoje, além de estudar, decidi também editar um pouco, vou balancear. Voltei, finalmente, à rotina de exercícios e alimentação balanceada que antes eram regra, o que em poucos dias já fez muita diferença. E agora vou continuar buscando esse equilíbrio, esse ritmo que funciona para mim, que encaixa.

 O mais bacana é a sensação de começar tudo AGORA e não depois, não "mais tarde". É sempre bom se sentir útil, ativa! E, por mais que ainda se mantenha o remorso de não ter feito isso antes, ou pelo menos mantido quando tive a oportunidade, eu sinto que já estou fazendo alguma diferença em me mexer um pouco. Eu tenho que parar de me preocupar com o que já passou, já foi, ou, nesse caso, não foi haha mas tudo bem, sabe? Não dá para comprimir a noção espaço-tempo como se as minhas ações fossem capital. O que dá para fazer é correr atrás do tempo perdido como eu posso, e levar isso à sério. 
 Só espero que dessa vez eu não olhe para trás e enxergue tudo isso como mais uma oportunidade perdida, mais um momento em que eu poderia ter me organizado e acabei não o fazendo, não cumprindo com as minhas expectativas, de novo.

"Quem, de três milênios,
não é capaz de se dar conta
vive na ignorância, na sombra,
à mercê dos dias, do tempo"
- Johann Goethe (escritor alemão)

Trilha Sonora: The Story I Heard - Blind Pilot (uma das minhas músicas favoritas de agora!)

Au revoir!