5.11.11

Em carne e osso

 Acordei cedo. O barulho das marteladas na parede vizinha e os passos no cômodo acima não me deram tempo nem de abrir os olhos por vontade. Os sons ritmados da reforma eram traduzidos como o bater de relógio na minha cabeça, e a sua contagem ia ficando cada vez mais alta. Mais alta, mais alta e mais alta. Tem sido assim pelo último mês inteiro, tudo o que acontece tem sido metrificado por esse pêndulo imaginário, acelerado, que repete o dia inteiro, a noite inteira, e muitas vezes me deixa sem ar.
 Eu consegui acompanhar o passo desse relógio por um bom tempo, e até me orgulho disso, mas chegou um ponto em que ele começou a pesar de mais, e eu deixei de acompanhar. Foi como se eu perdesse uma inspiração, e, por essa fresta de tempo, eu me desliguei de todo o resto. Foi assustador.
 Não sei muito bem como explicar, porque também não sei se alguém vai me entender, mas é como se por dois dias eu tivesse deixado de viver no piloto automático que todo mundo sempre vive. Aquele momento em que saimos um pouco do nosso corpo e adquirimos um olhar de fora, do tipo que entende que nós somos seres individuais. Quando você percebe que é você mesmo, uma força estranha, que controla esse apanhado de carne, ossos e pele. Você não está mais se deixando levar pela situação, e sim pela sua existência. É uma sensação tão grande, e ao mesmo tempo tão sozinha.
 Eu vivi uma série de situações novas durante um curto período de tempo, elas me atravessaram feito um tiro, e foi só nesse momento, nesse intervalo de respiração, que eu realmente me senti fora do ar. É como se tudo o que eu tivesse vivido até agora perdesse todo o sentido nesse meio tempo, eu realmente deixei de respirar.
 Foi assustador. E nesse contexto vale repetir, porque eu acho que é algo que vai me assombrar pelo resto da vida; o medo de pular essa inspiração novamente. Expirar sem ar, me expirar totalmente, até esvaziar. Todos os pensamentos obscuros que eu já tive medo de sequer soprarem por mim vieram à tona, e me atravessaram por inteira. E o fato de eu estar tão ciente do meu poder sob o meu próprio corpo, me fez perdê-lo tão rápido que me deixou distante, aérea. Essa força toda perdeu a sua importância, assim como a minha vida, e eu não sabia mais como controlá-la, eu havia desaprendido tudo. Ao meu redor, as coisas desapareciam pouco a pouco e as vozes iam para longe, bem longe. Como eu poderia ter tanto medo de mim mesma? Como isso poderia me tomar de um jeito que eu entrava em pânico cada vez que pensava em acordar?
 Eu demorei para decidir se mencionaria isso ou não aqui no blog, mas é algo que vale a pena compartilhar. Foi algo que fez eu me sentir tão sozinha, que hoje eu sinto a necessidade de comunicar, de alguma forma, para superar isso de uma vez por todas.

Trilha sonora: Yann Tirsen - La Valse d'Amelie

Au revoir!

2 comentários:

é estranho porque é tão dificil de descrever né? mas eu acho que é a mesma coisa pela qual passei a um tempo atras e me comunicar foi meu jeito de superar isso tambem, acabei criando um blog rs
Oi Alice, tudo bem?
Sigo seus vídeos pelo youtube e eles me ajudam muito, pois também vou para o Canada em Janeiro, mas vou para Vancouver.
Gostaria de saber sobre aquela ugg boots que você comprou...aonde você comprou, o modelo...essas coisas.
Beijos, obrigada :)

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