22.8.14

poesia transeunte


Montreal, Quebec. Uma versão quatro anos mais jovem minha, viajando sozinha pela primeira vez. Levava em uma mão o mapa e a outra agarrava à barra do metrô. Fazia pouco tempo que havia começado a andar de transporte público. Em São Paulo, tinha de cabeça as estações e pontos do cinema, da escola e da casa da Gabi. E era só para onde eu ia. A trajetória decorada, previsível, me gerava um estranho conforto, frio de diálogo e fiel em seu caminho. Como a ilusória intimidade de sorrir para o cobrador de rosto conhecido, sem esperar por resposta.
Dessa vez era diferente. Foi por um impulso de sair de "casa", de tomar ar das pessoas com quem havia sido designada a morar, que me vi com aquele mapa na mão. Pela primeira vez não sabia as paradas de cabeça. Pela primeira vez não sabia pelo o que esperar ao girar a catraca. Pela primeira vez eu não sabia de nada.
Os primeiros quinze minutos foram de pânico, confesso. Mas aos poucos, de tanto analisar e especular histórias sobre os rostos ao meu redor, fui me acostumando, forçando familiaridade. Escolhi um nome aleatório, o que me soava mais bonito. Place-des-arts? Place-des-arts. Esse mesmo.
"Station Place-des-arts, atterrissage sur le côté droit du train"
Subi as escadas. Já não sentia mais a insegurança de antes. Sabia muito bem o que eu estava fazendo ali. Era quase como uma missão antropológica, estava num safari urbano desconhecido. Minha primeira experiência de deriva consciente.
Meu andar ritmava um propósito: poderia muito bem estar indo à livraria, ou à farmácia da esquina. Era determinado. Eu acompanhava meus pés depois dos próprios passos, seguindo a sua vontade. Vontade esta que perseguia outros pés, outros rostos, outras paisagens. 
Eu vi poesia nas calçadas, nas conversas paralelas, nas pequenas narrativas que ia encontrando pelo caminho. Criava minhas próprias versões da realidade, ora inventando histórias que logo desapareciam em algum cruzamento; ora procurando motivos para entrar em lugares com fachadas simpáticas. Me deixava levar por alguma presença interessante, me deixava ser flâneur, me deixava. E por lá mesmo fiquei. 


“The crowd is his element, as the air is that of birds and water of fishes. His passion and his profession are to become one flesh with the crowd. For the perfect flâneur, for the passionate spectator, it is an immense joy to set up house in the heart of the multitude, amid the ebb and flow of movement, in the midst of the fugitive and the infinite. To be away from home and yet to feel oneself everywhere at home; to see the world, to be at the centre of the world, and yet to remain hidden from the world – impartial natures which the tongue can but clumsily define." 
Charles Baudelaire 

trilha sonora: múm - green grass of tunnel 

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